8 de março de 2012

Reinterpretando memórias


Dia desses uma pessoa me disse que quando parava para pensar em sua vida, o que lhe vinha à mente eram as lembranças tristes que viveu. Eu respondi que, na minha opinião, os eventos bons vividos pareciam ser esquecidos por ela em função de uma espécie de culpa de ser feliz, como se toda felicidade fosse errada e não pudesse ser relembrada. Ela ficou a pensar... 
Levei à casa dela uma Superinteressante que traz um artigo que trata exatamente das memórias e o nosso passado; do nosso presente e como podemos modificar a forma de vivenciar as coisas para sermos um pouco mais felizes.
Diz o artigo que nossa felicidade está ligada às nossas memórias, portanto, ligada ao nosso passado, e à forma como vivemos o presente - que logo se torna passado. 
Aliás, nosso presente dura três segundos, e pronto! Tornou-se passado. Essa é a conclusão de estudos do psicólogo francês Paul Fraisse, aceita hoje por diversos pesquisadores, como o psicólogo Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel.
Segundo essas pesquisas, após três segundos, todas as informações que vivemos saem da consciência e são arquivadas nos sistemas da memória do cérebro. Isso significaria que vemos e sentimos os eventos da própria vida através da memória.
Outras experiências comprovaram que as situações de medo são as mais gravadas na memória, junto com as situações de tristeza, e só depois, os momentos de alegria. Para se chegar a essa conclusão algumas pessoas em grupos diferentes foram expostas a imagens de filmes. No entanto, para um dos grupos, os filmes possuíam imagens violentas, o que fez com que se lembrasse das cenas vistas com maiores detalhes. Os psicólogos, então, chegaram à conclusão de que guardamos na memória os momentos de maior emoção.
E se os episódios dramáticos da vida geram memórias fortes, ao contrário, numa rotina entediante do nosso cotidiano, não produzimos sentimentos intensos. "Temos a tendência de nos lembrar melhor de coisas que têm colorido emocional", explica a pesquisadora Lilian Stein, especialista em memória emocional. A tudo isso, soma-se o fato de nossas memórias serem "semipermanentes", ou seja, "suas conexões são quimicamente sujeitas a modificações" se a ela agregamos novas informações. Se assim não fosse não aprenderíamos coisas novas.
Alterações acontecem naturalmente em nossa memória, conforme vamos reinterpretando algo que nos parecia ruim, mas que, depois de novo evento, passou a ser gratificante.
Propõem, então, que se as memórias são sujeitas a modificações, poderíamos reinterpretar os momentos tristes ou de medo vivenciados no passado, para eliminarmos a carga de emoção negativa que guardamos com elas. Seria o que o  artigo chama de "reinterpretar o passado", pois "lembranças ruins são fortes, mas elas podem ganhar um novo significado com o passar do tempo".
Dessa forma poderíamos imaginar que, se mudarmos nossa forma de agir e de pensar, fazendo um esforço para valorizar os eventos bons e gratificantes que vivenciamos no nosso dia a dia, teremos memórias carregadas de emoções positivas.
Precisamos de um presente mais feliz com eventos "diferentes" para gerarmos um passado de boas lembranças. E buscar mudanças no nosso cotidiano com novos hábitos é uma forma de viver melhor momentos presentes. "Os hábitos são uma grande oportunidade, porque podemos mudá-los", explica James Pawelski, da Associação Internacional de Psicologia Positiva.
A ciência vem hoje comprovar o que sempre, por intuição ou experiência, alguns já aprenderam há tempos: a importância de se buscar o lado positivo de tudo que vivenciamos.
E, se vemos que é possível ao homem reconstruir-se e reinterpretar as memórias do que viveu para ser mais feliz, que todos encontrem os caminhos  para uma vida de mais prazer e mais satisfação.
Para isso cabe a todos renascer todos os dias e viver sem apego ao que se acreditava imutável em nossas vidas - nossa memória.

Rita Ribeiro

* Memória & Felicidade, artigo publicado na Revista Superinteressante de janeiro de 2012

Leia também posts relacionados: 
"Memórias, emoções e esquecimento", publicado em 21/05/2009
"Esquecer para ser feliz", publicado em 26/03/2011
"Você é capaz de perdoar?", publicado em 03/09/2010

10 comentários:

  1. Oi, Rita, estou de volta para mais um aprendizado aqui no blog "Pensamento me leve". Gostei da leitura e acho que é dessa forma que acontece, mesmo inconscientemente, quando tentamos balançar momentos difíceis nas situações de vida. Dar novos rumos às coisas, reinterpretar fatos, encontrar novos objetivos nos ajudam a ser mais felizes, suplantando assim as tristezas do cotidiano. Esconder no sótão as dificuldades vividas não resolverão os problemas, mas dar uma limpeza, vasculhar, renovar, isso sim, faz maravilhas na vida da gente. Você nos trouxe importante reflexão porque precisamos nos aproximar mais da felicidade.
    Desculpe-me se divaguei no tema. rs

    Beijos!

    @soniasalim

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    1. Imagine, você não divagou em nada, Sonia. E disse tudo. É o nosso aprendizado, não é mesmo?

      Grata por suas palavras, e saiba que adoro quando você passa por aqui e deixa seus comentários.
      Beijo grande!:)

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  2. Interessante, Ritinha. Muito elucidativo.

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    1. Obrigada, minha querida amiga!
      Fiquei muito feliz em encontrar comentário seu.

      Volte sempre!
      Beijão no seu coração. :)

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  3. Belo e reflexivo...toda vez que te leio penso estar acompanhando uma crônica ou amtéria especial de um grande jornal! Parabéns, suas linhas são coerentes e inspiradoras, Rita!

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    1. Obrigada, Yohana. Muito mesmo. Bom demais ler suas palavras.
      Beijo. :)

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  4. O passado é apenas ponte para o amanhã. Não se pode viver na ponte. Toda ponte, por mais bela que seja, deve saber dos teus passos que te levaram adiante, onde moram tuas novas escolhas e a mais sublime versão de ti.

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    1. Muito lindo, Guilherme. Estamos mesmo, constantemente, construindo e nos desconstruindo, fazendo "versões" de nós.

      Lindo demais seu comentário! :)
      Beijo grande!

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  5. Rita maravilhoso esse texto. Aprendi com uma newsletter da Louise Hay a fazer sempre uma viagem de perdão ao passado. Nessa viagem você se imagina descendo até um riacho caudaloso e aí você coloca as lembranças doloridas, fatos que você quer dissolver, perdoar. Ao voltar você vai subindo um caminho extremamente bonito, cheio de flores, etc,etc e tudo do passado ficou lá embaixo no riacho. Podemos sempre fazer esse exercício e a cada vez quando retornamos à superfície estamos sempre mais leves. bjs

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    1. Olá, Ivani,

      Obrigada. Fico contente que tenha gostado.
      Interessante esse exercício do esquecimento a que você se refere. É libertador e dá oportunidade a uma verdadeira renovação dos sentimentos.

      Seja bem-vinda sempre!
      Beijo. :)

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