26 de outubro de 2012

A vida só é possível compartilhada


Li uma crônica intitulada "Eternas são as nuvens", em que a escritora Hilda Lucas se questiona, de maneira singela, para onde vai tudo o que se viveu num relacionamento que termina. "Para onde vai a mágica de certos instantes? A comunhão que se viveu, a cumplicidade de dividir tempo, espaço, experiências inaugurais? Para onde vão o carinho, a parceria, a entrega? Para onde vai o conhecimento, pessoal e intransferível, que se tinha do outro?" E eu achei muito interessante esse questionamento. Cada um de nós poderia imaginar um lugar e ter respostas diferentes para isso. 
Mas o que é bonito nesse questionamento é pararmos para refletir em tudo o que vivemos com diferentes pessoas. Será que guardamos tudo isso? Valorizamos? Esquecemos? Onde está tudo isso? 
Para a autora tudo vai para alguma nuvem, algum lugar interno, talvez, uma nuvem a que ela nomeia "weCloud", fazendo alusão ao iCloud, um aplicativo em que se pode armazenar determinado conteúdo de forma virtual, como fotos, músicas e contatos, entre outros. 
Imagino que essas nossas vivências e o conhecimento que delas adquirimos e que é só nosso (meu e do outro), acaba se diluindo no jeito de ser, sentir e pensar de cada um. De particular passa a nos fazer crescer. Dá-nos um upgrade na visão que temos do mundo. Ninguém passa imune a isso. "Tudo o que vivemos e sentimos vira acervo, fonte, ferramenta", como ela mesma diz. 
E o que ela expõe, vem ao encontro do que penso. Situações vividas com outra pessoa com a qual se teve intimidade e cumplicidade só podem ser compreendidas por ambos, e revividas e relembradas para sempre, como os planos que se sonhou junto, o apoio nos maus momentos e a torcida por conquistas, as manias, aquilo que nem se precisava dizer, as tristezas, as alegrias e até as decepções. 
O que se viveu nos fez aprender como lidar com as emoções, como somar, como dividir, como perder; como valorizar as perdas e os ganhos. São nossas memórias, sim, a história de nossa vida. E a cada pessoa que parte, outra chega e já somos outros para nova história, nem melhor nem pior, mas outra. 
E foi aí que me lembrei de uma crônica de Ivan Martins, em que ele conta lamentar-se ter perdido o contato das mulheres que passaram por sua vida, quando vê seus amigos que mantêm a amizade de suas ex-mulheres. Aliás, sobre o que diz também escrevi um post aqui no blog
Lembrei-me dessa crônica dele, talvez porque tanto quanto o de Hilda, Ivan trata da importância que tem o outro em nossas vidas. Diz Ivan Martins que tudo que realizamos durante a vida é compartilhado com alguém. Diz ainda que, muitas vezes, "a pessoa passa pela nossa vida e, por força das memórias que insistem em voltar, a gente percebe que ela sobrevive em nós"
É certo, cada um que passa por nossa vida faz uma troca conosco, deixa algo e leva também. E é assim que aprendemos a construir, com companheirismo e cumplicidade. Aprendizado que se tira de cada experiência vivida e com cada pessoa que conhecemos, pois cada uma é uma pessoa única, como nós somos únicos também.
Hilda Lucas exemplifica isso de forma bastante interessante ao dizer que "Maria é para João uma Maria que ela nunca será para Pedro, que é um Pedro para Maria, que nunca será o mesmo para Ana. Maria poderá ser muito mais feliz com Pedro do que João, mas ela terá sido a Maria do João e haverá sempre um lugar onde Maria e João se reconhecerão, mesmo que nunca mais se encontrem". Daí porque escrevi em meu texto que a ausência das "ex" de Ivan Martins em sua vida "não são uma perda", e "as experiências que teve com elas serão sempre únicas e estarão sempre intactas" em algum lugar de sua história, do seu ser, do que ele é hoje. 
Se analisarmos nossos relacionamentos, tanto os bons, quanto os piores momentos causaram em nós algum efeito - bom ou nem tanto, mas que, como consequência, nos serviram de aprendizado, mesmo tendo sido com a ajuda do tempo. Como diz, sabiamente a escritora, "é fundamental que cuidemos da nossa história, que saibamos acolher nossas experiências com generosidade". E eu, humildemente, acrescento: sem nunca nos arrependermos nem nos culparmos. 
Fico, então, imaginando que todos esses conhecimentos pessoais e intransferíveis, tão nossos; desconhecidos dos outros, conhecidos e entendidos somente por aquela pessoa em especial; estão em nós, são o nosso ser, nossa identidade, formam o que somos hoje; abertos, ainda, a novas aquisições, mudanças e transformações. E armazenados em nosso ser, talvez em nossa mente, nossa alma, nosso coração, no inconsciente ou como se queira, esse conteúdo nos faz crescer e aprender um pouco mais da vida. E ter essa compreensão faz com que vejamos nossos relacionamentos através de outro prisma, aquele que nos faz perceber a beleza e a importância que há nessa oportunidade de compartilhar experiências de vida com alguém.

Rita Ribeiro
[Sob Licença Creative Commons]


Crônicas citadas:
"Eternas são as nuvens", de Hilda Lucas, publicada na Lola Magazine, de outubro de 2012;
"O outro que há em nós", de Ivan Martins, publicado na Revista Época, em 12/10/2011;
"As pessoas da nossa história", post publicado por mim neste blog em 11/12/2012.

4 comentários:

  1. Rita, todo encontro com o outro, seja no relacionamento afetivo/amoroso ou numa amizade, os registros ocorrem em nossa mente. Uns deixam lembranças leves, sensíveis outros um turbilhão se sentimentos desconexos. Tudo isso compõe a nossa história. Todas servirão para nos direcionar a alguma coisa, como uma construção de vida.

    Abraços, querida!

    Sonia Salim

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    Respostas
    1. "Tudo compõe a nossa história" mesmo, Sonia!
      Obrigada pelo comentário e por sua presença.

      Abraços igualmente! :)

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  2. Ótimo texto e pensamento! Já viu o filme Na Natureza Selvagem; Fala sobre isso...
    Aguardo sua visita: http://mardeletras2010.blogspot.com.br/2012/10/grito-e-sussurros.html

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    Respostas
    1. Olá, Vanessa! Não conheço o filme, não, mas já vou anotar a dica.
      Obrigada pelas palavras. Seja bem-vinda! :)

      Aguarde-me, que vou visitá-la, sim.
      Beijo.

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