23 de março de 2012

A fragilidade das relações

Para o programa cujo tema foi "Transformações do mundo contemporâneo", a CPFL Cultura entrevistou, em Lies, na Inglaterra, o sociólogo polonês Zigmunt Bauman. Nessa entrevista, o sociólogo e escritor aborda sinteticamente assuntos importantes como a política mundial, o meio ambiente e o mundo globalizado; expõe sobre a democracia, o saber, a educação, as relações pessoais, o mundo virtual e a busca da felicidade. 
Como achei muito interessante tive vontade de escrever sobre o ponto em que ele aborda as relações pessoais. 
Sendo tema o mundo contemporâneo, ele inicia falando da amizade, o mundo virtual e as redes sociais que facilitaram bastante a comunicação e a possibilidade de conhecermos muitas pessoas. No entanto, ele deixa bem claro que esses "amigos" que adicionamos em grande número, e num pequeno espaço de tempo, em nossos perfis não é o amigo que ele sempre considera como tal. 
Explica o sociólogo que temos hoje a facilidade de adicionar muitas pessoas e ao mesmo tempo, e se elas não nos agradam e não gostamos mais, podemos deletá-las. Simples. E adicionarmos outras depois, mantendo sempre muitos amigos. E assim por diante... 
Ele não critica as redes sociais, mas analisa o efeito desse fácil conectar-se e desconectar-se das pessoas, o que resulta em vínculos frágeis que os homens vêm criando entre si, inclusive nas relações do mundo real. 
E se pararmos para pensar bem, quando nos afinizamos com pessoas que conhecemos nas redes, queremos logo que a amizade se estenda para o real. Sentimos que essa conexão precisa ser mais perfeita, pois como o sociólogo diz, quase não há vínculo entre pessoas que se conectam e se desconectam com tanta facilidade. 
Estabelecemos uma relação verdadeira com as pessoas com as quais queremos ver, com as quais sentimos o desejo de conhecer, conviver, trocar ideias e estabelecer vínculos de afeto. 
E o relacionamento humano, por ser algo complicado, demanda bastante de nós, pois conhecemos as pessoas, e também as diferenças; perceberemos que é necessário conceder, aceitar opiniões divergentes, como em toda relação. E isso tudo traz conflitos e dificuldades que nem sempre as pessoas estão dispostas a enfrentar. 
E estes amigos do nosso cotidiano não podemos deletar de nossas vidas nem nos desconectar de um dia para o outro, pois com elas  temos vínculos mais fortes de afinidade, afeto e compromisso. 
O sociólogo tenta nos mostrar que as dificuldades encontradas nos relacionamentos, atualmente, é consequência desse mundo consumista em que adquirimos e nos desfazemos das coisas em pouco tempo. Compramos algo e logo trocamos ou jogamos fora; e essa rapidez têm nos levado a agir igualmente em nossas relações pessoais. 
Torna-se mais fácil ter amigos hoje, e amanhã não ter a obrigação de investir nesses relacionamentos, se eles se tornarem incômodos, difíceis. E, no entanto, eles podem ser bons e duradouros para nós. 
O escritor nos alerta para o fato de podermos nos tornar "pessoas solitárias numa multidão de solitários" e continua, "todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo". "Uma situação triste e confusa, que homens e mulheres não conseguem perceber." 
Relacionamentos pessoais, sejam quais forem, de amizade, familiares, profissionais ou amorosos necessitam de vínculos fortes, empenho, compromisso e companheirismo, pois nem sempre concordaremos, nem sempre teremos as mesmas atitudes. Somos seres únicos, diferentes uns dos outros. E nem por isso podemos dispensar alguém por causa da divergência, ao contrário, podemos aprender muito com o outro, sobre o outro e, principalmente, sobre nós.
De acordo com Zigmunt Bauman, "esse viver junto e separado traz uma ansiedade e uma falta de qualidade nas relações, que a quantidade não sobrepõe"
A reflexão que fica é: até que ponto estamos substituindo relações, cujos vínculos são frágeis, para evitarmos o que nos parece meio trabalhoso? Até que ponto estamos deixando de desfrutar, aprender e crescer junto de pessoas que podem agregar, trazer algo bom para o cotidiano e a vida, simplesmente por medo dos difíceis caminhos que a convivência pode nos apresentar?

Ter lido um artigo sobre esse autor, a partir do qual escrevi um outro post aqui no blog, e por, posteriormente, ter visto essa entrevista a que me refiro, acabei comprando o livro* do sociólogo em que ele aborda essa fragilidade dos nossos relacionamentos. E eu recomendo.

Rita Ribeiro
[Sob Licença Creative Commons]

*"Amor Líquido - Sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos", Zigmunt Bauman, Editora Zahar

Leia também:
"A busca incessante de amor", post publicado neste blog em 04/08/2011

7 comentários:

  1. Olá Rita Ribeiro,

    Obrigado pelo seu comentário em meu blog!

    Pois bem, quanto ao seu post, concordo que as amizades iniciadas nas redes sociais são mais fáceis de se administrar em relação à uma que seja real, porém cabe a cada um de nós esforçarmo-nos por continuar buscando novas amizades reais, visto que nestas estão presentes as maiores dificuldades, que por sua vez, nos faz crescer como pessoa.

    Enfim, não abro mão das amizades construídas através da internet e nem das feitas em lugares físicos que frequentamos, pois ambas podem se desenvolver a ponto de se tornarem mais afetivas, e isso só vai depender de nós mesmos.

    Estou seguindo-te, seu blog é muito bom, parabéns!

    Um grande abraço, e que a partir de agora iniciemos uma boa e velha amizade acima de qualquer rótulo!

    Anselmo

    brevescronicas.blogspot.com

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    1. É isso mesmo, Anselmo, tudo depende de nós. É como diz, se soubermos administrar uma relação, não interessa como ela teve início.
      Obrigada pela visita e pelas palavras, Anselmo. Gostei muito.
      E que seja assim, como você diz.

      Grande abraço pra você também!
      Voltarei a lhe visitar. :)

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    2. Quanta bobagem.

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    3. Obrigada pela leitura e comentário, caro leitor anônimo. =]

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  2. Parabéns, Rita! Adorei esse texto 'A fragilidade das amizades', realmente, atualmente estamos vivendo num mundo de relacionamentos fragilizados...falta doação, compromisso em fortificar e manter vivo os vínculos de afeto, respeito...

    "pessoas solitárias numa multidão de solitários" e continua, "todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo". "Uma situação triste e confusa, que homens e mulheres não conseguem perceber." Infelizmente eu já percebo essa situação... embora tenha sorte de conquistar e manter grandes amizades. Assim como a sua! Bjsss.

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    1. Que bom que gostou, Sandra! Eu também gostei muito do que escreve esse sociólogo, pois é exatamente o que acontece. Fica como um alerta para todos nós, não é mesmo?

      Beijão!

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  3. Meus parabéns por esse texto maravilhoso!

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E você, o que pensa a respeito? Comente!

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