15 de dezembro de 2013

Ser feliz para ser feliz


Ontem li uma crônica antiga de Danuza Leão em que ela fala sobre a obrigação que muita gente se impõe de ser feliz. Descreve um episódio de uma mulher que pega um táxi para encontrar-se com amigos num restaurante lindo e caríssimo da cidade, e que não se sentia muito bem, não estava muito animada para o programa, mas achou que ao tomar uma bebida, tudo passsaria.
O trânsito muito ruim, ela começa a observar o taxista, um cara jovem, calmo, olhando várias vezes para o relógio. Ela deduziu, então, "alguém deve estar esperando por ele". E vai imagiando no que aquele homem poderia pensar ou querer para sua vida. "Teria planos para o futuro?" Planos de melhorar de vida e poder ir a uma pizzaria aos sábados, tomar cerveja, voltar para a casa e dormir abraçado com a mulher?"
Ela, por sua vez, já no restaurante, mesmo estando com aqueles amigos, não conseguia deixar de sentir-se entediada, mesmo depois das bebidas, como esperava.
Ria das histórias que contavam, riram da que ela contou, mas o taxista não saía da cabeça dela. "Quase sentiu inveja dele, que deveria estar indo deitar e dormir. E sem tomar remédio ou pensar para que se nasce e se morre."
Lendo esse artigo lembrei-me que, no dia anterior, uma das moças com quem estou trabalhando queria muito ir para um happy hour e se pôs a animar as outras. "Vamos, vai ser legal, nós vamos 'naquele lugar'." Uma delas nem pensa e já diz que quer chegar em casa e dormir. A outra não muito animada, demonstra dúvida, já pensando que precisa escolher uma roupa e se produzir um pouco. É, a animação daquela não parecia estar contagiando as amigas.
Por que sempre achamos que ir a determinados lugares, mesmo que com passoas legais, ficaremos muito bem, contentes, seremos pessoas felizes, mesmo que não estejamos querendo ir? Por que um programa assim, supostamente animado, nos parece sinônimo de grande felicidade? Será que é? Não, não é.
Por que ir para casa e se jogar na cama depois daquele banho gostoso não pode ser uma forma de se sentir bem? É, porque existem momentos em que há o cansaço, a preguiça, a vontade de ficar em casa, colocar uma roupa velha, como a moça  que Danuza descreve "querendo chegar em casa, se atirar na cama e ver o final de um filme bem ruim, sem precisar ser inteligente, charmosa e engraçada".
Talvez as pessoas estejam preocupadas demais em ser ou parecerem felizes. E, fazer o que se quer, mesmo o mais simples do nosso dia a dia, talvez nos dê melhor sensação de bem-estar que grandes programas.
Não existem receitas para ser feliz. Talvez felicidade, como a imaginamos, nem exista. 
O que precisamos é respeitar os momentos felizes, os pequenos prazeres, nossas vontades e as coisas simples de que gostamos. Só assim, estando satisfeitos, estaremos preparados e animados para, quem sabe, num dia qualquer, curtir um rápido programa; noutro, um cinema; talvez um jantar; ou uma grande balada, de repente. Mas, para isso acontecer  é preciso, antes, estar feliz.

Rita Ribeiro
[Sob Licença Creative Commons]


"A obrigação de ser feliz", crônica de Danuza Leão, publicada no caderno Cotidiano, da Folha de S. Paulo, em 23/09/2007

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