10 de maio de 2013

Emoções em equilíbrio


Li, há pouco, um texto de Ivan Martins a que ele intitulou "O mar de emoções" em que ele trata de certo tipo de relacionamento cujos parceiros encontram grande dificuldade de entendimento. Pequenas discordâncias são motivos para grandes brigas. Diz ele que, nessas ocasiões a racionalidade lhe parece "camada muito fina do que nos faz humanos". E completa: "sob a película da lógica e das palavras, move-se dentro de nós um mar de emoções que nos comanda", e "elege nossas disputas e define as nossas afinidades".
Gostei bastante de suas colocações, pois existem mesmo tais relacionamentos em que a razão parece não predominar em momentos em que bastasse relevar palavras ou repensar atitudes e tudo seria diferente. A esse mar de intensas emoções que toma conta das pessoas fazendo-as ora se atraírem, ora se oporem é o que entendo ser um desequilíbrio de emoções.
Talvez, o que os atraia esteja nesse mesmo ponto de desequilíbrio. As atrações, os sentimentos, as paixões e os consequentes desentendimentos vibram todos numa mesma sintonia - a do desequilíbrio. Uma intensa afinidade emocional que desequilibra. E de tão intensa chega a ser difícil lidar com ela. E, acredito, com pessoas assim, com emoções intensas, tornam-se difíceis os acordos, os acertos, as atitudes de companheirismo e do pensar no outro e em ambos mais difícil ainda. Como descreve o autor há somente atitudes destrutivas e autodestrutivas.
E penso que mesmo que um dos companheiros tenha mais fortes emoções, o outro sempre sofrerá, porque não percebe que também participa de tamanhos descontroles. Relacionamentos assim têm início e fim avassaladores, momentos tão bons e tão ruins, paradoxalmente. Cada pessoa que aceita tacitamente um relacionamento assim, percebe com que tipo de parceiro está se relacionando. Entra no jogo e o aceita.
Todo tipo de relacionamento mexe muito com nosso emocional, seja nas relações em família, no trabalho, entre amigos; mas o que os difere do relacionamento amoroso é a afinidade que ambos possuem; a intensidade dos sentimentos; e a intimidade que os une profundamente. E, nesse caso, de uma grande paixão é preciso cultivar um sentimento maior, intenso também, mas pacífico que leve ao companheirismo, à amizade, ao cuidado do outro, ao carinho e a um querer bem que faz esquecer-se de um pelo outro para que ambos possam fazer trocas. E somente trocas desse tipo podem sustentar a convivência que sempre passará por dificuldades, pois as diferenças existem. Mas, quando se pensa que há algo maior e melhor a nos unir e fazer bem - como o amor é capaz-, as emoções mais intensas tendem a ser mais serenas.
Esse é um longo exercício de um e do outro, individualmente, mas também em conjunto, pois deseja tudo isso quem acredita que pode ser feliz cedendo em pequenos egoísmos e orgulhos bobos, para ganhar em muita generosidade. Deixa-se de pensar somente na primeira pessoa para se chegar ao plural.
Então, volto ao texto de Ivan Martins no ponto em que ele fala dos casais cujas relações são duradouras e que para estes, acredita, há o que ele denomina um "fenômeno de compreensão profunda”, e ainda, "uma conexão silenciosa de personalidades que produz ao mesmo tempo conforto e intensidade"
Diz ele que são emoções profundas que se comunicam. Gostei disso, mas eu diria que nesses casos há emoções em equilíbrio, e talvez por isso consigam ser profundas e tão benéficas para ambos. 
Cabe a todos que desejam um relacionamento bom, sadio e prazeroso verem que é necessário o amor, sim, mas também esse exercício de aprimoramento pessoal constante a nos fazer ver a importância do outro em nossa vida, e juntos poderem contemplar muita felicidade. Afinal é isso que todos buscam, não é mesmo?

Rita Ribeiro


"O mar de emoções", artigo de Ivan Martins, publicado em 08/05/2013, Revista Época

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