7 de janeiro de 2013

Um 2013 de muitos rasgos em seu jeans!

Em seu último artigo de 2012, na Folha de S. Paulo, o psicanalista Contardo Calligaris escreveu sobre as marcas que o tempo e a experiência deixam em nós, fazendo uma analogia com as marcas e remendos de duas camisas de "brim", como ele diz, que ele comprou há muito tempo numa liquidação em Nova York. Conta que foi sempre dessa forma que entendeu a moda do jeans desbotado, com suas bainhas desfeitas e desfiadas ou das calças furadas e rasgadas: "a vida deixa marcas e feridas na roupa e na gente; e escondê-las (atrás de roupas novas) significaria esconder a maior riqueza que acumulamos, a dos percalços de nossa existência, que eles tenham sido bons ou ruins, tanto faz".
Gostei muito dessa ideia. Eu tenho uma calça jeans de que gosto muito, já bem velha, aliás, jeans é minha peça de roupa favorita, mas meu gostar [da calça velha] é mais pelo conforto que ela me dá; e, se eu fosse pensar no tempo em relação a essa calça, confesso, pensaria apenas que ela ficou velha, e nunca que o tempo que passou para minha calça, passou para mim também...
Mas, se pensarmos bem, quantas marcas não ficaram em muitos outros objetos que o tempo fez passarem por nossa vida, nossas mãos, como os livros que lemos, os cadernos de escola e da faculdade, nossos objetos tão pessoais...?  Enfim, nossa vida está mesmo gravada em tudo que nos pertence, e essa é nossa maior riqueza.
E as marcas das nossas calças jeans, velhas e desbotadas, são bem emblemáticas desse tempo que passou. As roupas são, de certa forma, a extensão de nosso corpo. Nós as moldamos e também somos moldados por elas. Traduzem o decorrer do tempo e tudo que tivemos oportunidade de vivenciar, o que Calligaris chama de "experiência real".
Mas ele também confessa que "sua crença nesse espírito do tempo que carregou em seus remendos", às vezes, lhe parece um pouco ingênua, por ele ter, um dia, se deparado com um jovem usando um jeans novo, todo rasgado e desfiando. E nele pôde ver não a experiência adquirida com o tempo, experiência real, de que tanto se orgulha, mas a "aparência de experiência" demonstrada nos rasgos e remendos de mentira do jeans que o jovem vestia.
E, por isso, também pôde constatar que vivemos num tempo em que não se valoriza mais a experiência, mas a aparência de experiência.
Aliás, Calligaris já havia escrito, um dia, (e eu citado aqui, em um post) que, "quem somos  depende de como conduzimos nossas vidas e de como é avaliada pelos outros". Nosso trabalho, riqueza, estilo, virtudes morais, cultura, e tudo o que nos circunda mostra "se somos antenados, pop, fashion, sem noção, ricos, pobres ou emergentes, cultos ou iletrados".
É assim que somos valorizados: pela aparência. E também por isso que as pessoas acabam por seguir determinados "modelos" com que acreditam serem melhor aceitas ou melhor julgadas.
E o psicanalista conclui seu artigo de fim de ano, desejando "os votos de um 2013 com rasgos e remendos reais, ou seja, de uma vida que não precise ser confundida com um reality show para convencer aos outros (e à gente) de que ela vale a pena".

E eu gostei muito disso!

A todos que seguem este blog, deixo o meu desejo sincero de que no novo ano sejamos mais o que queremos ser; que optemos mais por realizar nossos desejos e sonhos, que seguir modismos; pois não há nada mais triste e vazio que tentarmos ser o que na realidade não somos, nunca fomos, nunca seremos.
Muitos rasgos e remendos em nossos velhos e desbotados jeans! Feliz 2013!

Rita Ribeiro
[Sob Licença Creative Commons]

Textos citados:

- "Experiência para 2013", artigo de Contardo Calligaris, publicado no Caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo, de 31/12/2012
- "O mistério de cada um", post publicado neste blog em 23/10/2011

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