8 de dezembro de 2012

Mentir é preciso?


Hoje, assisti em um telejornal do Globo News a um debate, cujo tema era "É necessário mentir?", em que se levantaram muitos lados dessa questão. 
Por que mentimos? Viver em sociedade é impossível sem pequenas mentiras? Existe mentira branca, mentira leve? Segundo os debatedores, nossos atos têm consequências e, para conseguirmos nos relacionar em sociedade, é necessário mentir. 
É claro que, aqui, trata-se de pequenas mentiras que são ditas para não ofender ou magoar as pessoas, como, por exemplo, se alguém muda seu visual e pergunta eufórica se a outra gostou - e ela não gostou -, mas responde que "sim, claro, ficou bom!". Mentiu
Eu, sou sempre pela verdade e sinceridade nas relações, mesmo porque, talvez por um traço meu de ansiedade, sou transparente demais e não consigo sustentar uma mentira. Quem me vê, logo percebe. Mas num caso desses, talvez eu também mentisse, e talvez a pessoa até percebesse que mentia. É, mentiria, porque nem sempre é possível dizer o que pensamos. Segundo uma frase atribuída a Oscar Wilde, "pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal". 
Foram entrevistados o especialista em grafologia e linguagem corporal Paulo Sérgio de Camargo, autor do livro "Não minta pra mim!", que é o resultado de muito tempo de pesquisa em sua área. Ele fala que é possível perceber que alguém está mentindo, apesar de algumas pessoas terem muita facilidade de mentir; que mulheres têm mais facilidade em mentir, até por uma maior facilidade que elas têm nos sinais de sua linguagem corporal, que os homens têm em menor número; e dos truques verbais de quem  mente entre outras coisas, como a fala, a maneira de olhar, e de escrever.  
A outra entrevistada, Adriana Braga, professora e pesquisadora da PUC-RJ, explica que a necessidade ou aceitação das mentiras, pequenas, ou não, depende muito dos grupos ou da relação que se estabelece entre as pessoas, ou seja, o que em um determinado grupo é aceito, noutro pode ser inaceitável, pela ética que cada grupo acaba, tacitamente, criando em suas relações. 
E pode-se querer sempre a verdade? Talvez não, exemplo disso foi  o comentário que um telespectador enviou ao programa confirmando não saber ao certo se mentir é o melhor, pois conta que, uma vez, ao ser abraçado por uma amiga numa festa de seu trabalho, percebeu que ficou a marca de batom em sua camisa; foi sincero com sua mulher contando o ocorrido; no entanto, ela não acreditou, brigaram e ficaram dias sem se falar. Pois é... Verdade e mentira  estão ligados à confiança, necessária nas relações. Como equacionar isso sem ficarmos sempre reféns dessa nem-sempre-verdadeira necessidade de mentir? Qual é o limite? Isso é um mito? Uma falácia? Até que ponto é correto e moral mentir? Não se torna mais fácil mentir que se esforçar para viver com verdade numa relação? É... A questão é bastante complexa. 
Conta o escritor que o brasileiro, culturalmente, é o povo que mais aceita a mentira, e, se observarmos bem, veremos esses tantos políticos que mentem, e todos sabem que mentem, mas não percebemos nas pessoas uma natural e esperada indignação. 
Por acaso e coincidência, li no mesmo dia um texto intitulado "As várias faces da mentira", em que o autor, o psicanalista Flávio Gikovate analisa  mais profundamente as causas que levam o ser humano a mentir. Para ele determinadas pessoas mentem para não parecerem frágeis ou inferiores diante daqueles que elas julgam mais fortes. E mentem também porque têm medo de se sentirem envergonhadas e serem alvos de ironias, o que lhes fere a vaidade. 
Até aí, Gikovate  trata da mentira usada como mecanismo de defesa. Exemplifica, por exemplo, com a pessoa tímida, que diz não gostar de festas; ou a pessoa gorda, que diz não gostar de praia. São pessoas que não querem se expor e recorrem ao que o psicanalista chama de "postura de natureza defensiva", ou seja, mentiras "que servem como armadura contra o deboche, as críticas e o julgamento alheio"
Para ele, mente-se para fingir que tudo está sob controle, "ainda que sentir medo e insegurança faça parte da natureza humana". 
E eu fico pensando que esse mecanismo de defesa pode virar um hábito; e mentir, então, torna-se uma forma meio patológica de agir.
Parece-me que não estamos preparados para agir livremente, sem medo dos julgamentos nem sabemos ser francos, quando devemos.  
Gikovate, chama a atenção dessas pessoas, dizendo que poderiam acordar "para uma verdade óbvia e fácil de enfrentar. Aquele que me intimida é tão falível e frágil quanto eu". Lembrando: "e eu sou o outro que tanto lhe mete medo".
E esse assunto fica longe de se esgotar... 
Medo, defesa, necessidade de se conviver em harmonia, seja como for, a mentira, em seus diversos níveis, permeia nossas relações e, acredito, é muito difícil afirmarmos ser melhor mentir, pois é importante lembrarmos sempre da ética nas nossas relações, do bom-senso e daquilo que também esperamos para nós. E finalizo com o pensamento do psicanalista austríaco Wilhelm Reich, que um telespectador enviou ao debate, dizendo ser norteador de seus atos, e que diz: "faz parte do meu respeito pelas pessoas expor-me ao perigo de dizer-lhes a verdade". Em tese, seria o ideal, concordo, mas seria possível?
Fica para cada um de nós refletir sobre a mentira, como lidamos com ela e as suas consequências em nossa vida e dos que estão à nossa volta.


Rita Ribeiro
[Sob Licença Creative Commons]


"É necessário mentir?", Jornal Globo News, 07/12/2012
"As várias faces da mentira", artigo do pisiquiatra e psicanalista Flávio Gikovate

4 comentários:

  1. Rita, boa tarde! É bom estar aqui, ler e refletir acerca deste texto e fazer uma análise pessoal que poderá suscitar outras visões. Eu sempre procuro lidar mais com a verdade, embora isso nos afaste das pessoas porque elas não estão preparadas para recebê-las. E nós também, quando ouvimos certas verdades ficamos longo tempo 'digerindo' até aceitarmos algumas mudanças ou percebermos certas características em nós mesmos. Faz parte de minha natureza lidar com a verdade, isso traz consequências, mas sempre as suporto com dignidade, prefiro assim. Acho melhor perder amigos por ter sido sincera do que eventualmente bajular ou falar mentiras que poderão prejudicar. Há também que se pensar na validade das verdades, pois somos tão complexos que uma verdade pode valer na vida do outro e na minha vida não surtir efeito algum. Então, é difícil caminhar entre verdades e mentiras. Realmente é uma longa discussão.

    Abraços, querida!

    Sonia Salim

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    Respostas
    1. "Há também que se pensar na validade das verdades, pois somos tão complexos que uma verdade pode valer na vida do outro e na minha vida não surtir efeito algum."

      Pois é, Sonia... Concordo com você e gostei desta ideia que adiciona. A mentira e a verdade são reflexos de nosso ser, há quem (sobre)viva de uma, ou de outra.

      Grata pela visita e pelas palavras!
      Abraços pra você também! :)

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  2. "Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa. Preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo de mentiras."

    Vermelho Amargo" - Bartolomeu Campos de Queirós


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    1. Muito bonito, Sonia, e bem interessante!

      Obrigada! :)

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