18 de janeiro de 2011

Sofrendo por antecipação


Hoje, fazendo faxina em minha estante, entre livros, revistas, artigos de jornais que eu separava ou que alguém me dava, encontrei um chamado "Sofrer por antecipação"* em que uma neurocientista fala do sistema nervoso e a interpretação errônea que os livros didáticos lhes dão ao dizer que servem somente para "detectar estímulos e responder a eles". Argumenta que, se assim fosse, um indivíduo mesmo que o fizesse "de forma coordenada e organizada, viveria eternamente no presente", não teria a noção de passado, o que o impediria de reviver experiências ou de fazer planos para o futuro e, consequentemente, não sofreria por antecipação. 
E ao pensar nisso, conta sobre o dia em que seu pai fez uma cirurgia do coração e que, há semanas, seu cérebro já a torturava com os riscos que ele correria. Explica que ficava imaginando tudo o que poderia dar errado na operação, passando o dia todo desnorteada. Quem já não passou pela experiência de ficar pensando demais num acontecimento futuro sem saber o que poderia acontecer? 
Explica ela que isso se deu pelo fato de, mesmo estando a quilômetros do hospital, no cérebro dela, o hipocampo era capaz de projetar para o futuro combinações de suas memórias sobre o pai e tudo o que acontecia nesse tipo de cirurgia, influenciando "o hipotálamo a fazer seu corpo sofrer de acordo". E hoje ela pode reviver essa situação, mas agora pode lembrar-se do que aconteceu e curtir seu pai que passa bem. 
Ao ler esse artigo e ver a data do jornal, revivi um ano cheio de problemas e sofrimentos que passei junto de minha família, por causa de uma doença que acometia meu pai. E achei tudo isso muito curioso. Fiquei pensando e tentando imaginar que, além daquele sofrimento passado naquele momento, que até então era muito presente; talvez, eu também tenha guardado em meu cérebro sensações que pude projetar para um futuro; e sofri por antecipação também, bem como minha família, pois vivíamos uma situação cujo fim desconhecíamos. Não pude deixar de fazer essa analogia e perceber como tudo pode ter se processado. 
E estamos sempre sofrendo por antecipação em diferentes situações e em diferente intensidade. No entanto, quando sofremos e, então chegamos a esse incerto futuro que se torna o nosso presente - o dia de hoje -, percebemos que, pelas experiências que passamos, a vida nos ensina que nada no futuro é tão ruim, que não sejamos capazes de superar. 
A vida é feita de ciclos e nosso cérebro não só pode nos fazer sofrer por antecipação; como também pode nos fazer compreender e selecionar o que nos faz um pouco mais felizes. É claro que depende de um trabalho individual nosso também. Sem esquecer o tempo, esse, que nos é imprescindível e consegue transformar o que nos fazia sofrer em lembranças e memórias.

Rita Ribeiro


*"Sofrer por Antecipação", artigo escrito por Suzana Herculano-Houzel, neurocientista, professora e escritora, no Caderno Equilíbrio do Jornal Folha de são Paulo, em 11-09-2008

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