15 de setembro de 2010

Religião e espiritualidade


Há tempos tenho vontade de comentar um artigo de Rubem Alves em que ele conta ter recebido, via e-mail, um texto de um pastor que defendia os jogadores do time do Santos, quando foram levar ovos de páscoa para uma instituição de crianças com paralisia cerebral, mas que, pelo noticiado à época, alguns jogadores teriam se negado a sair do ônibus, por ser uma a instituição espírita. 
Como Rubem Alves diz, não se sabe bem como tudo aconteceu (escrevo o que me contaram), mas que a análise do pastor que havia recebido deveria ser usada para uma reflexão: "Usem o texto para pensar". E concordo com ele, é isso mesmo que deve ser feito. 
Diz o pastor Ed René Kivitz, (cristão, pastor evangélico e santista desde pequenininho), que "o mundo religioso é mestre em fazer a cabeça das pessoas", e por isso traça para o leitor um paralelo que faz sobre a religião e a espiritualidade. Acredita ele que o "Cristianismo implica a superação da religião. A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé." E, sabiamente, ele diz que quando se discute sobre quem vai ao céu ou ao inferno; se Deus é contra ou a favor do homossexualismo; se o correto é reencarnação ou ressurreição; se se deve ser a favor da teoria de Darwin ou o que narra a Gênesis; se é preciso subir escadas de joelhos ou se é preciso pagar dízimo, e ainda, se o fato de uma instituição ser espírita kardecista gera polêmica, estamos falando apenas de religião. 
E mais, "toda vez que você discute religião, você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância." Li esse texto há mais de um mês, e sempre penso nas palavras desse pastor (aliás, como pede sabiamente o escritor). Penso que se temos uma religião e a seguimos, é porque algo de bom faz por nós e, porque com ela nos identificamos, seja ela qual for, mas, acima de tudo, porque faz com que sejamos pessoas melhores. Esse é o grande objetivo, a fim de que assim possamos pensar no outro, não porque ele acredita no que acredito, porque gosta do que gosto, porque é como sou, mas, ao contrário, porque deve ser considerado igual, mesmo que seja completamente diferente de mim. 
Vivemos num mundo em que (sempre) em nome de Deus se fez guerra. E então, acredito que para aqueles que, assim como eu, creem na existência de um Ser Superior, ter fé não é ter a "cabeça feita", nem viver defendendo ou tentando converter a todos para alguma religião de preceitos moralistas, como muitos pensam. É muito mais. 
Por isso, volto à fala do pastor quando, sabiamente, diz que vem se dedicando mais a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião, pois "quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E para ele, quando se tem o coração cheio de espiritualidade e não de religião, promove-se a paz, a justiça e a superação do sofrimento humano. 
E sintetiza: "quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que sua religião ensina ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e a miséria de uma paralisia mental." Muito lindo isso!



* "Escrevo o que me contaram", artigo de Rubem Alves, publicado no Caderno C, do jornal Correio Popular, em 01/08/2010

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