26 de junho de 2010

O tempo [Danuza Leão]

Qual a coisa mais preciosa do mundo, mais que o ouro, que todos os diamantes, todas as moedas fortes, toda a riqueza e poder da terra? Acertou quem respondeu o tempo. Coisa misteriosa este tal de tempo. Quando você não tem absolutamente nada para fazer, ele não passa, e se fica esperando que chegue a noite, e o dia seguinte, quase em desespero. Mas quando a vida está movimentada e boa, ele voa, e quando você se dá conta, a semana acabou sem saber como, e o mês também, e foram-se os anos. Não há meio termo: ou se morre de tédio ou de exaustão. O que é melhor? Difícil escolha. 
Quando não se faz nada, sobra tempo para pensar em coisas que nos fazem ou fizeram sofrer, lembrar do passado com arrependimento, saudades, ou, o pior de tudo, com a sensação de não ter vivido - pensamentos, aliás, absolutamente inúteis. Quando o tempo sobra, qualquer palavra que se ouve é analisada, o contexto em que ela foi dita pode ter proporções perigosas, e até o tom de voz tem - ou pode ter - um grave significado. 
Se seu porteiro diz alguma coisa que não te soa bem, é uma punhalada no coração, e quem tem o dia pela frente para ficar remoendo o que ouviu vai viver um drama, pois nada para fazer de uma bobagem uma grande tragédia como uma boa tarde ociosa. Mas pergunte a alguém, com dois empregos, quanto tempo dura o sofrimento. Exatamente o tempo entre a casa e o trabalho; na fila para o ônibus, o problema já acabou. 
Ah, o tempo; o tempo que não se tem para ouvir a amiga, para escutar o problema do filho, o tempo que ninguém tem para escutar os nossos. E como não se pode viver sem ter com quem falar existem, felizmente, nossos queridos analistas, que dedicam 50 minutos inteirinhos só a nós, ouvindo todas as bobagens e nos compreendendo, sem que o telefone toque ou que a empregada bata na porta pedindo dinheiro para comprar carne. 
Coisa mais curiosa; quando você está esperando ansiosamente por alguém que marcou de chegar às nove - e você às oito já está pronta, claro -, é capaz de passar uma hora inteira olhando para o relógio, e só para isso foi inventado o ponteiro dos segundos; para se ter certeza de que o tempo passa. Por outro lado, se estiver com o homem que mais ama fazendo a mais maravilhosa viagem, quando se der conta ela já acabou, sem deixar uma só prova de que tudo existiu, a não ser na memória e em algumas vagas fotos. Só que um dia, quando você estiver amando outra pessoa, já terá esquecido - como tantos se esqueceram de você. O tempo, remédio para tantas coisas, mas que demora tanto para fazer efeito. 
O tempo não tem forma, cheiro, sabor; não pode ser comprado em farmácias, ser dado nem emprestado, não é vegetal, animal nem mineral, não pode ser guardado no cofre, não pode ser esbanjado, nem é possível economizá-lo para o futuro. Ele não existe, e ao mesmo tempo só ele existe. 
E o homem, que já conseguiu tantas proezas, como voar, chegar à lua, ser mais veloz que o som, fazer chover, transformar a água do mar em água doce, irrigar os desertos, só não conseguiu ainda dominar essa coisa tão preciosa e abstrata que é o tempo.


Crônica publicada na Revista Cláudia, junho de 2010


*** Ah! O tempo, este do qual já falei muitas vezes pelos posts deste blog e que também apareceu em muitos comentários interessantes de amigos, leitores e visitantes... Li, gostei e postei (mais uma vez) crônica interessante de Danuza que, aqui, tem "lugarzinho cativo".

Outros textos de Danuza Leão (ou posts com referências à autora) no blog: leia aqui.

6 comentários:

  1. O ponteiro dos segundos existe pra nos lembrar de como as horas se arrastam.

    É verdade.

    Cheguei até aqui por acaso e essa foi a minha primeira leitura do dia.

    Valeu a pena.
    Vou seguir.

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  2. Que bom, Bruno, fico contente e devo isso ao texto interessante da Danuza que, de vez em quando, posto aqui.
    Apareça, sim. E não deixe de comentar.

    ;*

    Beijo!

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  3. Rita...

    'E verdade que o homem nao conseguiu dominar o tempo, e isso porque o tempo simplesmente nao existe. So sabemos que deve existir indiretamente, pelo efeito que ele tem nas coisas animadas e inanimadas de nosso mundo.

    E ja que o homem nao pode dominar o tempo diretamente porque o tempo nao existe ou nao existe de forma que nos entendemos, o homem tenta retardar o efeito do tempo manipulando e modificando o receptor do efeito do tempo, em nosso caso, o mesmo homem. E hoje em dia o homem vive em media bem mais tempo que os ancestrais dele.

    Contudo dominar o tempo? Como se pode dominar algo que nao existe?

    Um abraço

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  4. É, Chris, o homem sente a necessidade de ter o domínio sobre muitas coisas - a natureza, o conhecimento, os sentimentos e até as pessoas à sua volta -, talvez até para sentir-se mais seguro pelos caminhos que percorre durante a vida.

    E essa segurança só pode estar na busca pelo conhecimento de si mesmo.

    Abraço pra você também!
    ;*

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  5. Rita
    também cheguei aqui por acaso e gostei do seu Blog
    Bem interessante a reflexão sobre o tempo...
    quem tem muito o perde
    e quem tem pouco, o deseja cada vez mais

    " O tempo passa por mim tão rápido, que mais parece o vento, atropelando as horas" ( DH)

    bjs

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  6. Doroni, é isso mesmo.

    Às vezes o tempo não passa, deixamos que ele passe por nós, assim, sem nem percebermos.

    Como diria um amigo meu: "Tempus fugit"!

    Obrigada pelas palavras!
    Bjs*

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